Dezenas de pessoas compareceram à iniciativa que o Conselho Português para a Paz e Cooperação organizou, no passado Sábado dia 31, para homenagear Laura Lopes e Silas Cerqueira, dois históricos lutadores do movimento pela Paz.

A presidente do CPPC, Ilda figueiredo, que dirigiu a iniciativa apresentou cada um dos homenageados:

“LAURA LOPES tem a sua assinatura no documento que deu existência legal ao Conselho Português para a Paz e Cooperação, datado de 24 de Abril de 1976. Fosse só por isso e fazia já parte da história do movimento da Paz português. Mas essa assinatura, longe de ser um acto isolado, expressa um longo e corajoso compromisso com a luta pela Paz, pela justiça e pela liberdade, ao qual Laura Lopes se dedicou ao longo de décadas.

Nascida em Lisboa, em 1923, numa família operária

, Laura Lopes aprendeu muito cedo o que era a guerra e a repudiá-la: um amigo da família estivera nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, onde fora gaseado. Parte da sua juventude foi passada com o ouvido colado ao rádio, ouvindo as notícias sobre a Guerra Civil de Espanha e a Segunda Guerra Mundial. A infância e a juventude foram o terreno fértil de onde surgiram os ideais da vida adulta: no dia 9 de Abril de 1949, então com 26 anos, pratica o seu primeiro acto público de luta pela Paz.

Nesse dia, em que se evocava a batalha de La Lys, particularmente cruel para os soldados portugueses, o regime fascista homenageava-os junto do monumento aos Mortos da Grande Guerra, na Avenida da Liberdade. O MUD Juvenil decide prestar-lhes também o devido tributo: mal termina a solenidade oficial, Laura Lopes – que integrava o núcleo do MUD Juvenil na Faculdade de Direito – coloca no pedestal da estátua um ramo de flores com um pequeno cartaz, onde se lia A Juventude Luta pela Paz. Cinco dias antes, há que não esquecer, o Portugal fascista participava na fundação da NATO, aliança militar agressiva ao serviço dos desígnios de domínio global dos EUA. Sombras negras de guerra pairavam uma vez mais sobre o Mundo...

Depois desta «estreia», nunca mais Laura Lopes deixou de defender activamente os valores da Paz. No final de 1952, com Vasco Cabral e Manuel Valadares, integra a delegação do movimento da Paz português ao Congresso dos Povos para a Paz, em Viena, acontecimento que a marca profundamente. Já no ano anterior, fora uma das proponentes da candidatura presidencial de Ruy Luís Gomes – a qual defendia, pela primeira vez de forma pública, uma política de Paz e independência nacional, em tudo oposta à submissão da ditadura à política externa aventureira e belicista dos EUA. Pela ousadia, seria anos mais tarde demitida do ensino.
Subscritora e apoiante activa de todas as campanhas promovidas pelo movimento da Paz ao longo dos anos, activista da Comissão Democrática Eleitoral (CDE) e participante no III Congresso da Oposição Democrática em Aveiro, Laura Lopes, vive por um curto período, em Paris, onde se liga à Comissão Nacional da Paz e Cooperação, constituída fundamentalmente por exilados políticos, e que intervém simultaneamente em Paris e em Portugal. Pouco antes do 25 de Abril, participa, em Sófia, na Assembleia do Conselho Mundial da Paz, acompanhada pelo escritor Urbano Tavares Rodrigues e pelo filósofo Vasco Magalhães Vilhena.

Fundadora do CPPC, pertenceu à sua Direcção Nacional e integra a sua Presidência desde que os estatutos foram elaborados. Na década de 80, cria com outras mulheres, a Comissão de Desarmamento do CPPC, que durante largos anos desenvolve uma intensa e diversificada actividade. Após a Revolução, participou em diversas iniciativas internacionais relacionadas com a defesa da Paz, quer em representação do CPPC, quer de outras organizações e movimentos que fazem desta uma causa central, nomeadamente o Movimento Democrático de Mulheres: entre elas, destacam-se a Conferência das Mulheres para a Segurança e Cooperação na Europa, em Helsínquia, e em reuniões, congressos, assembleias e encontros em diversos países do Mundo.

Também enquanto jornalista, escreveu em várias publicações artigos sobre a defesa da Paz, a corrida aos armamentos, a segurança e a cooperação europeias, os mesmos temas que a levam a percorrer o País em debates e conferências.

Professora, jornalista, advogada de presos políticos e, depois do 25 de Abril, de sindicatos, Laura Lopes é uma das mais destacadas lutadoras portuguesas pela Paz e faz parte da História do movimento da Paz e do Conselho Português para a Paz e a Cooperação. Que o seu exemplo, coerência e determinação nos guiem, hoje, na continuação desde justo combate que é o nosso.


SILAS CERQUEIRA é, inquestionavelmente, uma das figuras mais destacadas do movimento da Paz português, ao qual está ligado praticamente desde o seu surgimento, na viragem da década de 40 para a de 50 do século XX. Oriundo do Porto, de uma família apostólica baptista, é nos Estados Unidos da América, onde estudava, que toma contacto com a cruel realidade da Guerra da Coreia, colocando-se, de imediato, ao lado do povo coreano contra a ingerência e a agressão norte-americanas e pela independência e reunificação do seu país.

Profundamente marcado por esta experiência e empenhado neste combate, integra-se no movimento da Paz português assim que regressa ao País – estava-se então nos anos do Apelo de Estocolmo contra as armas nucleares, do Pacto de Paz entre as cinco grandes potências, da contestação à guerra na Coreia e à presença de Portugal na NATO. Mas eram os tempos duros da repressão fascista, que procurava silenciar, pela força, a reclamação do povo português à Paz, à liberdade e ao progresso.

Este seu envolvimento na luta pela Paz valeu-lhe a prisão, em finais de 1952. O seu «crime»? Colocar um ramo de flores num monumento aos combatentes da Grande Guerra, iniciativa tradicional do movimento da Paz nesses anos de chumbo. Esta prisão desencadeou uma imensa contestação por parte da comunidade baptista e dos sectores democráticos portuenses.

Até à Revolução de Abril, em Portugal ou em Paris (para onde foi viver e leccionar n a Universidade) nunca mais Silas Cerqueira deixou de lutar activa e abnegadamente pelos valores da Paz, do desarmamento, da solidariedade e cooperação entre países e povos – ao mesmo tempo que combatia o regime fascista que oprimia o povo português e os povos das colónias africanas. Por diversas ocasiões, representou o movimento da Paz português em reuniões, encontros e congressos do Conselho Mundial da Paz.

Após a Revolução, regressa a Portugal onde prossegue e intensifica a sua acção em prol da Paz, agora em liberdade. Logo em 1975, está na organização da conferência internacional de solidariedade com os povos português e angolano contra a ingerência imperialista, que traz a Portugal o então presidente do Conselho Mundial da Paz Romesh Chandra. Em Abril de 1976, participa activamente na constituição formal do Conselho Português para a Paz e Cooperação, que deu expressão legal a uma realidade sólida e há muito existente em Portugal, mas durante anos duramente reprimida: uma frente de luta em defesa da Paz composta por pessoas de diversos sectores profissionais e sociais professando diferentes ideologias políticas e crenças religiosas.

De então para cá, Silas Cerqueira teve um papel preponderante no alargamento do movimento da Paz e na solidariedade activa com os povos que, um pouco por todo o Mundo, resistiam ao imperialismo. Em Novembro de 1979, está na organização da “Conferência Mundial de Solidariedade com o Povo Árabe e a sua Causa Central: a Palestina”, realizada em Lisboa. A participação de Yasser Arafat nesta importante iniciativa constituiu a primeira visita do dirigente palestino à Europa Ocidental, contribuindo decisivamente para romper o isolamento a que a causa palestina se encontrava então sujeita nesta região do Mundo.

A Conferência Internacional de Solidariedade com os Estados da «Linha da Frente» (Zâmbia, Tanzânia, Botsuana, Moçambique, Angola, Zimbabué, Lesoto e, em representação do povo sul-africano, o Congresso Nacional Africano/ANC, visando a libertação nacional dos povos colonizados e a eliminação do apartheid), realizada em Lisboa em Março de 1983, teve também a destacada participação de Silas Cerqueira. O mesmo sucedeu com a criação do Movimento Português contra o Apartheid, que partiu do CPPC e congregou diversas organizações e personalidades, e teve igualmente a sua marca. Foi no âmbito deste movimento que Nelson Mandela participou num conjunto de acções de contacto com o povo português, que tantas vezes expressou a sua solidariedade para com a luta do povo sul-africano.

Outra grandiosa iniciativa à qual deixa o seu nome ligado é a constituição do movimento «Não às Armas Nucleares», que englobou diversas organizações, sindicatos, municípios e personalidades e promoveu grandes acções unitárias.

Membro da Direcção Nacional do CPPC durante vários mandatos, integra a sua Presidência, dando regularmente a sua valiosa contribuição à reflexão e acção quotidianas do Conselho Português para a Paz e Cooperação. Homenagear este combatente pela Paz é evocar uma vida inteira dedicada a uma causa justa e reafirmar o futuro dessa mesma causa que nos cabe, e a ele connosco, prosseguir.”

À sessão de homenagem segui-se um almoço de confraternização.